Quinta-feira, 19 de Março de 2009

Cor-de-Rosa

 

 

 

Nos bicos dos pés, espreitou pelo óculo... Não consegue ver nada, nem ninguém...
 
Podia  jurar que tinham tocado à porta. Agora mesmo!
 
Pés a arrastar, o chão que cede à sua passagem...
 
Não está com disposição para brincadeiras dos miúdos. Mas eles teimam em fazer pouco de si... Não há direito! Qualquer dia vai ter de chamar a porteira para ver se ela passa a dar um olhinho e impede o raio dos putos de lhe atazanarem o juízo!
 
Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz... Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz...
 
Não pode ser?! De novo, pés a arrastar...
 
Ainda bem que tinha vestido a bata cor de rosa, a que mais gostava desde os tempos de recém-casada... O seu Zé gostava tanto de a ver com aquela cor... Mas onde isso já ia... E o seu Zé...
 
Voltou a espreitar... Bicos dos pés... Do outro lado uma figurinha mirrada, quem sabe minada por invejas e maldizer... Nem queria acreditar no que via. Mas no fim de contas nada tinha de especial. Tinham sido amigas, muito amigas mesmo. Até que um mau estar incompreensível se instalou. Desde o último dia em que vira a Mira até hoje, tinha feito os possíveis e até mesmo os impossíveis para não pensar nela... Quando a mente e as lembranças a ludibriavam, lá vinha o cabelo revolto, entre o cobre e o ouro, os olhos verdes cheios de raiva e o cheiro azedo de uma conversa que não entendia...
 
- Nunca mais fales comigo, ouviste, Celeste? Não te quero ver... SAI!
 
Assim fizera...
 
Hoje... Nos bicos dos pés, espreita pelo óculo...
 
Mira respira fundo do outro lado da porta! Movida pela curiosidade...
 
-Sim? Quem é? – como se não soubesse. Por muito mudada que estivesse sabia perfeitamente de quem era a figura que na sombra se mexia com a dificuldade do passar dos anos...
 
- Sou eu... A Mira!
 
Lentamente... Abriu! Voltou a ver como no passado, a mesma energia, a mesma intempestividade... No regresso veio a voz cansada pelo tempo...
 
- Sou eu...
 
Durante uns segundos... Horas... Não sabe. Ficou parada sem reacção... Já não eram as mesmas, afinal! O mundo tinha dado tantas voltas...
 
- Entra. Aqui para a sala... Queres alguma coisa? – Queria antes saber o que a tinha levado ali... Mas ficou calada... É melhor!
 
 
De pé, encostada à ombreira da porta da sala, a mão esquerda sobre a anca... Ali...
 
- Celeste?... Vim-me despedir... Pedir desculpa... Fui uma tola! Bem sabes que era assim. Ainda sou! Desculpa... Não devias ter ficado com o casaquinho cor de rosa... Era para mim...
 
E o seu Zé? Ele sempre gostara de a ver com aquela cor...
 

 

 

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Foi... Com olhos de ver às 15:55
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